O que fazer em Israel: tour até a Faixa de Gaza

Nosso guia, um judeu. Nosso motorista, um palestino.

O que fazer em Jerusalém? Provavelmente se você está planejando sua viagem para Israel, esta pergunta está na sua mente. Assim sendo, tenho certeza que este artigo vai te ajudar (e muito)!

Está buscando uma atividade não (diretamente) relacionada à religião para se fazer Jerusalém? Este artigo também é para você. Um tour que mistura um passeio por Israel com muita cultura e história. Vamos conhecer e visitar a fronteira de Israel e a faixa de Gaza? Sim, por mais assustador que isso pareça, inclua no seu roteiro de Jerusalém ou Tel Aviv. Você não vai se arrepender.

O que você sabe sobre a faixa de Gaza? Eu sabia dos constantes ataques, tudo aquilo que a televisão mostra. Mas chegar pertinho deste lugar, isso eu nunca imaginei que aconteceria.

Uma espécie de museu a céu aberto com os destroços de foguetes caseiros que atingiram Sderot.

Dica de viagem: tour não religioso em Jerusalém

Em Jerusalém ficamos hospedados no Abraham Hostel (veja o review do hostel AQUI). A fim de proporcionar uma melhor experiência seus hóspedes, o hostel possui sua própria agência de turismo, a Abraham Tours. Primeiramente, na hora de escolher qual tour faríamos, um dos títulos nos chamou atenção logo de início foi: Gaza Border Reality Tour. Lembramos de todas as notícias fortes que vimos em nossas vidas sobre Gaza, entretanto decidimos confiar na empresa. Certamente eles não levariam um bando de turista para um lugar perigoso, certo? Minha mãe também topou a aventura (eu não entrei bem nos detalhes, mas ela sabia que era algo muito diferente).

Roteiro do tour

O tour sobre a faixa de Gaza é composto pelo seguinte roteiro:

  • Erez Crossing checkpoint (e conversar com comerciantes de Gaza);
  • dirigir ao longo da fronteira da faixa de Gaza e Israel;
  • Sibboni, um ponto de observação onde é possível ver a faixa de Gaza. Fica próximo ao kibutz Nir Am;
  • ‘Black Arrow’ memorial site;
  • cidade de Sderot;
  • cidade de Netiv Ha’asara;
  • Projeto Path to Peace;
  • muro que separa Israel e Gaza.

Israel foi atacada 2 dias antes do tour

Na noite anterior ao tour, recebemos um e-mail assustador cujo título era “IMPORTANT NOTICE REGARDING TOMORROW’S GAZA TOUR”  (traduzindo: NOTÍCIA IMPORTANTE SOBRE O SEU TOUR DE GAZA AMANHÃ). Surpreendetemente em letras maiúsculas. Israel havia lançado um bombardeio contra a faixa de Gaza no dia 14 de Março (2 dias antes de nosso tour). Depois que 2 foguetes foram disparados do lado palestino em direção a Tel Aviv. Como resultado do ataque, os alarmes na cidade soaram. Isso não acontecia desde 2014.

Em resumo, os foguetes não causaram danos. Um caiu no mar e outro em uma área não povoada. No entanto a tensão estava em seu auge na regiãoO e-mail foi escrito reafirmando que os responsáveis haviam checado com os locais que o tour era seguro para ser realizado. Entretanto, caso alguem não se sentisse confortável, poderia cancelar o tour sem custos extras. 

Nós confiamos nos responsáveis e decidimos seguir com o plano. Faríamos o tour até a fronteira da faixa de Gaza.

 

Quer acompanhar com mais detalhes o tour sobre a Faixa de Gaza?

 No nosso Instagram deixamos no highlights este dia em detalhes.

Acesse nosso perfil no Instagram AQUI

Seguro viagem

Nesses momentos percebemos a importância de estarmos cobertos com um bom seguro de viagem. Nós optamos pelo seguro da Real Seguros, você pode fazer uma cotação NESTE LINK. Lembrando que ao contratar o seguro com nosso link você nos ajuda a continuar criando conteúdo relevante sobre nossas experiências. Isso com o intuito de te ajudar a planejar sua próxima viagem.  Sem você pagar nada a mais por isso.

O tour saia cedo do hostel, às 6:50. A tensão começou ali mesmo. Só para exemplificar, antes mesmo da van partir, nos foi entregue um manual. No manual, passo a passo de como agir caso ouvíssemos sirenes soarem. Alarme este que indica que Israel estaria sob ataque de Gaza. Com toda a certeza medo resumiu nosso sentimento na hora, mas já era tarde demais para desistir.

Conhecendo nosso guia

Fisicamente Eliyahu McLean era um típico judeu. Isto é, exatamente igual aos que eu via na televisão ou nos jornais. Sua cabeça ewstava coberta com um kipá e uma boina preta. Antes de mais nada, cobrir a cabeça é um sinal de respeito no oriente. Os judeus têm o costume de cobrir a cabeça há pelos menos 2 mil anos. Outra curiosidade que encontrei: um homem não deve andar mais de sete passos com a cabeça descoberta, segundo o Talmud. 

Nosso guia também tinha aqueles cachinhos na frente das orelhas. Outra característica típica de judeus. Estes cachinhos são chamados de peiot e são típicos dos judeus ortodoxos. Isso acontece em cumprimento ao mandamento de Levítico 19:27. “Não raparás em torno de tua cabeça, nem tirarás as bordas da tua barba”. 

Sua roupa era um pouco formal também. Pelo menos mais formal do que eu estou acostumada a ver para um guia de turismo. Já conversando com ele descobrimos outros detalhes. Não apenas ele nasceu na Califórnia, de mãe judia e pai cristão, mas que por vontade própria seguiu os costumes judeus. Viveu por vários anos em Israel. Voltou para os Estados Unidos para estudar sobre o Oriente Médio e, por consequencia, se tornou um ativista que luta pela paz.

nosso guia, Eliyahu McLean, um ativista em busca de paz.

O início do tour

Seguimos para o Erez Crossing checkpoint. A passagem de Erez é um terminal de pedestres e de cargas. A barreira está  situada na fronteira entre Israel e o território palestino da faixa de Gaza. Está localizado no extremo nordeste da faixa de Gaza. É o mais importante ponto de entrada e saída de pessoas e bens de consumo. A fronteira é controlada pelo exército de Israel.

Claro que não temos autorização para cruzar a fronteira. Apenas comerciantes autorizados podem levar bens de consumo de Israel para Gaza, voluntários de ONGs e uma lista limitada de pessoas que buscam tratamento médico em Israel e seus acompanhantes.`Ainda assim, a lista é pequena.

Estar ali e conhecer aquelas pessoas foi impactante. Sem contar na estrutura do prédio da alfândega. Um prédio grande e majestoso, com suas paredes de vidro. Parecia um aeroporto de pequeno porte subutilizado. Tudo muito estranho já que  é um prédio que recebe pouquíssimas pessoas. Sem contar com os foguetes circulam quase que livremente.

Erez Crossing checkpoint, ou pelo menos a foto da placa - aqui é o último ponto onde podemos fotografar com segurança.

Um ponto seguro para ver Gaza

Seguimos para o Sibboni lookout, próximo do Kibbutz Nir Am. Este é um ponto mais alto, com uma vista privilegiada da faixa de Gaza. Enquanto o guia nos dava mais informações sobre a situação atual do local, ouvimos o barulho de tiros no fundo. Em seguida, assustados perguntamos o que era. Em contraste, o guia calmamente nos assegurou de que era apenas o treinamento diário do exército israelense. Deste ponto é possível ver a cidade de Gaza. Barricadas e pontos de observação dos dois lados da cerca também são avistados. 

Com toda a certeza não há clima algum para uma foto posada em um local como este. Entretanto encontramos no local várias flores amarelas. Como resultado, decidimos fazer a foto abaixo. Ela ilustra a música que lembramos naquele momento.  “No coração de quem faz a guerra nascerá uma flor amarela”, diz a letra da canção do Cidade Negra.

“No coração de quem faz a guerra nascerá uma flor amarela”, Cidade Negra. Faixa de Gaza ao fundo.

A briga por energia

Nesta parte do tour o guia explicou um dos maiores conflitos entre eles: energia. Israel produz ⅔ da energia que Gaza precisa (imagina depender do seu inimigo para um bem tão precioso quanto a energia?). Em dados momentos, Israel limita o fornecimento de energia a  4 horas por dia. Fiquei chocada ao tentar entender o que essas pessoas passam por lá, imaginando uma mãe de família tendo que aguardar a energia chegar para lavar a roupa dos filhos, ou uma família sem poder guardar a comida perecível da semana pois não há fornecimento de energia. 

Por outro lado, Israel não pode cessar o fornecimento pois o país como um todo também seria prejudicado no final das contas. Imagina a situação: Gaza não recebe energia, a região entra em colapso. Vamos pensar apenas na rede de esgoto. Sem energia para tratar seu esgoto, Gaza irá jogar o esgoto dos seus quase 2 milhões de habitantes em qualquer ponto da faixa de 41km de mar que possui. Mas acontece que seu “vizinho de porta”, Israel, retira água do mar logo ali ao lado para ser consumida pela população. Israel está preparada para dessalinizar a água do mar, mas não realizar o tratamento de uma água extremamente poluída. Imagina o impacto disso na economia, já que 80% da água consumida em Israel vem do mar. Enfim, Israel precisa ajudar seu inimigo Gaza a pelo menos se manter em pé, pois caso contrário, todo mundo sai prejudicado. 

memorial em homenagem ao que restou de um kibbutz destruído na guerra de 1948.

‘Black Arrow’ memorial

O Black Arrow memorial é um monumento em memória à Operação Black Arrow (Hetz Shachor) que foi uma operação militar israelense realizada em Gaza (sob controle egípcio) em 28 de fevereiro de 1955, em retaliação ao terrorismo fedayeen. Esta operação teve como alvo o exército egípcio. Nesta operação, 38 soldados egípcios e 8 israelenses foram mortos. O local é um memorial para os pára-quedistas e as onze operações de retaliação que foram realizadas pelos pára-quedistas entre 1953 e 1956.

O memorial fica a oeste do Kibbutz Mefalsim na direção de Kfar Azah. Em cada uma das grandes rochas espalhadas no local, uma placa dá detalhes de cada uma dessas invasões. Estações de informações de áudio podem ser encontradas em todo o memorial, as explicações detalhadas são fornecidas em hebraico e inglês. 

Vestígios de um ataque recente

No entanto, o memorial tinha uma outra história assustadora e mais recente para nos contar. Próximo às árvores, na beira da estrada de chão batido, ainda podíamos ver os cacos de vidro das janelas de um ônibus que havia sido atingido por um míssil vindo de Gaza há pouco mais de 4 meses – e foi assustador.

Neste vídeo gerado pelo Hamas, um ônibus comum, sem emblema militar algum é atacado minutos depois que vários militares desembarcam, no qual o motorista foi morto. O vídeo mostra militares andando e interagindo minutos antes da explosão, próximo ao alvo. É como se o Hamas tivesse atingido o ônibus vazio apenas para enviar um recado do tipo: “eu sei o que vocês estão fazendo e onde estão”. Após este acontecimento, mais de 300 foguetes saíram de Gaza com objetivo de atacar Israel e ataques aéreos massivos retaliatórios em Gaza por parte de Israel, trazendo os lados de volta à beira da guerra. 

os cacos de vidro das janelas de um ônibus que havia sido atingido por um míssil vindo de Gaza 4 meses antes de nossa visita ao local

Falamos com habitantes de Gaza pela internet!

Sim, falar com pessoas de Gaza pela Internet é algo valioso suficiente para estar em um tour, você não leu errado não!

Em Gaza 2 milhões de pessoas vivem presas em uma fatia fina de terra ao longo do Mediterrâneo. Gaza é chamada por muitos de a maior cadeia do mundo! Sim, um território nos dias de hoje comparado a uma cadeia já que a maior parte da população não pode sair de seu pequeno território, não pode viajar, não tem liberdade de expressão e seu acesso  à TV e internet é limitado de todos os lados. Todos os bens de consumo que entram em Gaza são minimamente controlados por Israel e a energia elétrica pode acabar a qualquer instante. 

Portanto, conversar com um grupo de jovens de Gaza através de uma videoconferência foi algo inusitado. O grupo com quem conversamos luta para que jovens de Gaza continuem a estudar e se desenvolverem como pessoa, algo muito difícil para a realidade que eles enfrentam.   

videoconferência com jovens ativistas de Gaza - eles corriam perigo em falar com a gente, mas lutam para que Gaza tenha futuro.

Uma cidade destruída pela guerra

Dirigimos por vários trechos ao longo da fronteira de Israel e Gaza – a tal cerca estava ali nos acompanhando o tempo todo. Em alguns pontos apenas linhas de arame farpado, em outros estava acompanhado de sensores, muros e paredes de concreto e aço. 

Descemos da van em um determinado ponto. O guia pegou o binóculos e nos preparou para a nossa próxima paisagem – uma cidade em ruínas. Casas, muros, postes completamente destruídos ali diante dos nossos olhos, logo depois da cerca – era um dos bairros de Gaza destruído, resultado da última batalha.

um bairro inteiro destruído pelos ataques de Israel.

Uma cidade acostumada a viver com medo

Próxima parada, Sderot, a cidade acostumada a viver ao som do alarme que anuncia um possível ataque de foguetes vindo de Gaza. A cidade é alvo constante do Hamas, já que é uma cidade de relativo porte e uma vez que fica localizada a menos de 1km da fronteira. A primeira parada foi o posto policial, local que montou uma espécie de museu a céu aberto com os destroços de foguetes caseiros que atingiram a cidade. 

Na frente do posto policial, um condomínio de prédios residenciais de 3 andares. Sem dúvida oderia ser um condomínio qualquer, exceto por uma razão: todos os apartamentos tem um quarto antimíssil. Em Sderot isso é comum.

O ponto de ônibus também sai do comum. Um quarto antimíssel e um ponto de ônibus, lado a lado. O governo israelense instalou um sistema de alarme “Luz Vermelha” para alertar os cidadãos sobre ataques de foguetes iminentes. A população tem de 7 a 15 segundos para procurar abrigo  após o soar do alarme. 

A última parada do tour foi na cidade Netiv Ha’asara, onde conhecemos os residentes desta cidade vizinha da fronteira e participamos do lindo projeto que mistura amor, cor e paz, o projeto Paths to Peace. Mas isso é assunto para um outro post.

o projeto Path to Peace quer mostrar ao mundo (principalmente aos habitantes de Gaza) que ainda há amor e paz em Israel.

Informações gerais

  • Empresa que oferece o tour: Abraham Tours, Israel.
  • Site: https://abrahamtours.com
  • Nome do tour: Gaza border reality tour
  • Horário de início: 6:50 em Jerusalém.
  • Cidades: Jerusalém e Tel Aviv. O tour sai de Jerusalém, mas se você estiver em Tel Aviv ou outras cidades, também é possível participar.
  • Valor: $106 (dólares americanos)

O tour “Gaza border reality tour” descrito neste artigo foi apoiado pelo Abraham Tour. Entretanto todas as informações contidas são independentes e refletem a opinião e a experiência vivida por nós, Maiza e Antonio – M.A. Way Viagem e Aventura.

uma árvore da vida feita de pedaços de foguetes usados contra Sderot.
Quartos a prova de foguetes nestão espalhados pela cidade.
como manter as crianças seguras em uma cidade constantemente atacada por mísseis? Construa uma centopéia gigante a prova de foguetes no parquinho de diversão da cidade.
cidade de Sderot.
jardim de uma casa em Netiv Ha’asara com vista para o gigantesco muro que separa Israel e Gaza.

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